Existe uma pergunta que tem me acompanhado há bastante tempo e que considero fundamental quando falamos sobre prevenção, infância e futuro: em que momento começamos a nos preocupar com os riscos que ameaçam nossos filhos?
Normalmente essa preocupação surge quando eles crescem. Quando entram na adolescência. Quando aparecem as primeiras amizades que nos deixam inseguros, os desafios próprios dessa fase da vida, os perigos das redes sociais, a violência ou o risco do envolvimento com álcool e drogas. No entanto, ao longo de quase quinze anos convivendo diariamente com histórias de sofrimento, recaídas, reconstruções e recomeços na Comunidade Bethânia, fui aprendendo uma lição que mudou profundamente minha forma de enxergar a prevenção.
Os grandes problemas raramente começam grandes. Isso por que antes da dependência química existe uma trajetória. Antes da crise existe uma história. Antes da droga existe uma criança. E antes de qualquer comportamento de risco existe um filho em processo de formação, aprendendo a interpretar o mundo, construindo sua identidade e buscando respostas para perguntas que nem sempre consegue expressar em palavras.
Toda criança precisa descobrir que possui valor. Precisa sentir que pertence a algum lugar. Precisa encontrar referências capazes de oferecer direção, segurança e significado. Quando essas necessidades são atendidas de forma saudável, tornam-se fatores de proteção. Quando são negligenciadas, deixam espaços que frequentemente serão preenchidos por outras influências ao longo da vida.
Por essa razão, cada vez mais acredito que a prevenção começa muito antes da droga. Ela começa na infância. Começa na qualidade dos vínculos que construímos. Começa na transmissão de valores. Começa dentro das famílias.
É justamente nesse ponto que gostaria de propor uma reflexão especial sobre a paternidade. Durante muito tempo associamos o papel do pai principalmente à capacidade de prover. O bom pai era aquele que trabalhava duro, garantia o sustento da casa e oferecia melhores condições de vida para os filhos. Essa responsabilidade continua sendo importante e digna de reconhecimento. No entanto, reduzir a paternidade apenas à provisão talvez seja um dos grandes equívocos do nosso tempo. Filhos precisam de recursos, mas também precisam de referência. Precisam de oportunidades, mas também precisam de direção. Precisam de proteção material, mas igualmente necessitam de segurança emocional, limites, acompanhamento e presença.
A presença paterna não influencia apenas o ambiente familiar. Ela contribui diretamente para a formação da identidade, da responsabilidade, da autoestima e da capacidade de lidar com frustrações e desafios. É através da convivência diária que os filhos aprendem, muitas vezes sem perceber, o valor da palavra dada, do compromisso assumido, do respeito às pessoas, da honestidade e da perseverança diante das dificuldades.
Talvez uma das maiores ilusões da sociedade contemporânea seja acreditar que a formação dos filhos pode ser terceirizada. Esperamos que a escola transmita valores. Esperamos que a internet ofereça discernimento. Esperamos que a sociedade forneça referências saudáveis. Todas essas instituições possuem seu papel e sua importância. No entanto, nenhuma delas consegue substituir completamente aquilo que acontece dentro de uma família estruturada e comprometida com a formação de seus filhos.
Por isso, fortalecer a figura paterna não deve ser compreendido apenas como uma pauta privada ou familiar. Trata-se também de uma estratégia de proteção da infância, de prevenção social e de construção de futuro. Quando um pai assume sua responsabilidade, os benefícios ultrapassam os limites da própria casa. Crianças mais seguras tendem a tornar-se adolescentes mais preparados. Adolescentes mais preparados possuem maiores condições de fazer boas escolhas. E adultos capazes de assumir responsabilidades contribuem para a construção de comunidades mais fortes, saudáveis e desenvolvidas.
Discutimos frequentemente desenvolvimento econômico, segurança pública, educação e saúde. Todos esses temas são fundamentais. No entanto, poucas vezes reconhecemos que o futuro dessas áreas começa a ser construído muito antes das políticas públicas, dos investimentos ou dos indicadores sociais. Ele começa dentro das casas, na qualidade dos relacionamentos familiares e na formação das novas gerações.
Por isso hoje, Dia Internacional de Combate às Drogas, em 26 de junho, acredito que vale ampliar a reflexão. Combater as drogas é necessário. Mas fortalecer as condições que ajudam nossos filhos a não precisarem delas talvez seja ainda mais importante. Isso começa cedo. Começa no colo. Começa na mesa de jantar. Começa nas conversas aparentemente simples do cotidiano. Começa no tempo dedicado aos filhos. Começa na disposição de ouvir antes de corrigir, orientar antes de cobrar e permanecer presente antes que os grandes problemas apareçam.
No final das contas, o futuro que desejamos para nossos filhos não será construído apenas quando eles se tornarem adultos. Ele já está sendo construído agora, silenciosamente, dentro das nossas casas, através dos exemplos que oferecemos, dos valores que transmitimos e da responsabilidade que assumimos. Antes da droga existe uma criança. Antes da crise existe uma família. E antes de qualquer transformação social existe um pai decidindo qual história deseja entregar à próxima geração.
Porque você não é responsável pela história que recebeu.
Mas é responsável pela história que vai entregar.
Por Anderson Bento Garcia - Gestor da Comunidade Bethânia