O Coração de Jesus

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30/08/2010
Pe. Francisco Sehnem,scj
O Espírito é vida nova, luz, alegria, força, coragem, fogo.

P – O coração de Jesus
T – Nem frio nem quente

“As almas tíbias se tornarão fervorosas”. Essa é a sétima promessa do Sagrado Coração de Jesus aos que cultivarem amor por ele.

Andei consultando o meu dicionário e ele explicou que tíbio significa frouxo, fraco, sem ardor, sem entusiasmo, indolente. São Cláudio la Colombière considerava a tibieza como o maior obstáculo para uma doação sem reservas. Numa de suas cartas escreve: “Eu preferiria ter de converter um grande pecador a lidar com uma pessoa religiosa que se deixou levar pela tibieza. É um mal quase sem remédio. Conheço poucos que se emendem; a idade que remedeia outros defeitos da natureza, só faz aumentar esse” (C.4).
Dante Alighieri (escritor renascentista) é terrível no julgamento dos tíbios. Na verdade, não encontrou lugar para eles nem no inferno e abandonou os tíbios num lugar neutro e apagado, sem qualquer brilho. Ele escreve que a sua vida cega é tão desprezível que eles invejam qualquer outra sorte (cf. Inferno III, 47-48). Ninguém quer os tíbios. Eles são desprezados pelo céu e pelo inferno.
Até aqui tudo bem. São opiniões de um escritor ou de um santo. Mas, se lermos as palavras do Apocalipse (3, 15-16), ficaremos um pouco mais preocupados: “Oxalá fosses frio ou quente! Mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te”. Os tíbios serão vomitados, expelidos do Corpo de Cristo.

Uma brecha


Olhando para nós mesmos, notaremos que às vezes fomos ou somos um tanto quanto tíbios. Estamos cheios de temores e inseguranças. Nem sempre, nossa fé e nossos valores cristãos foram (ou são) o motivo mais profundo de nossas decisões. Muitas vezes, gostamos de viver à beira do abismo ou em cima do muro: “Até onde posso ir, sem risco de ir para o inferno?”.
Há remédio para tudo isso? Cláudio la Colombière tinha suas dúvidas. Mas, se lermos com atenção a Palavra de Deus, nós perceberemos que há um caminho de retorno, há esperança. As próprias admoestações do Apocalipse aparecem como um convite insistente de Alguém que sofre pela falta de amor e espera, ainda, uma volta ao antigo fervor. O convite vem de Alguém que foi até o fim no seu amor, foi até a cruz. João Paulo II, na sua carta Dives in Misericórdia (Deus rico em misericórdia) escreve que, aqui, somos atingidos por um amor que é mais forte do que o pecado, maior do que a morte. Esse amor é tão grande que encontrará também um caminho para os fracos, os indecisos, os sem vontade, os mornos. Se realmente tudo parecer sem graça e sem sentido, quem sabe ainda é possível começar por pedir ao Coração de Cristo que nos dê vontade de ter vontade. Isso já será o suficiente, porque abre uma porta, uma brecha para o amor entrar.
Cristo disse que veio trazer fogo a terra e quer muito, muito mesmo, que ele arda. Se não tivermos mais forças, se não tivermos mais vontade, não tem problema. Basta aceitar que ele nos ame. É só chegar perto e deixar-se amar. Jesus é nossa força. Se tivermos apenas a coragem suficiente para deixá-lo entrar, ele virá a nós com a força do seu Espírito. O Espírito é vida nova, luz, alegria, força, coragem, fogo.
O mesmo Cristo do Apocalipse está aí, numa insistência quase violenta, pedindo autorização para cumprir esta sua promessa. Ele quer que também os tíbios voltem a ser amigos seus. E o milagre poderá acontecer. Basta que ainda tenhamos fé, do tamaninho de um grão de mostarda. E acho que todos temos, ainda, ao menos um grãozinho de mostarda em nossa bagagem.

Pe. Francisco Sehnem , scj
Especialista em Espiritualidade do Sagrado Coração de Jesus
claed.sehnem@pop.com.br

 
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