Palavra em ação
Há caminhos para se obter a paz de espírito. Um grande amigo de João Cassiano, teólogo cristão, do período da patrística, monge de Marselha na França, interrogava a cada monge como se obter a quietação interior. Puamun acertadamente respondeu: “Por uma profunda humildade de coração”. A humildade é o conhecimento sincero de sua própria realidade, de sua fraqueza, de suas paixões, de seu lado trevoso. Apenas aquele que, de fato, olha de frente sua verdade pode atingir a quietude. Trata-se da coragem de descer ao mais profundo de si mesmo, de aceitar sua condição terrestre e sua humanidade com todas as suas debilidades. É reconhecer que, sem a graça divina, ninguém é forte, ninguém é santo. Os desafios da vida cotidiana se tornam assim degraus para se chegar à calma total. Quantas pessoas se queixam por não poderem se imegir no silêncio de uma prece, inteiramente libertas das importunações dos outros. Logo que elas se assentam para entrar em meditação, os problemas surgem imeditamente e tiram o recolhimento. João Cassiano, acima citado, tem uma visão notável deste problema. Para ele o caminho para a serenidade supõe o combate. É como o treinamento de um atleta. Graças às múltiplas ocupações, às importunações das pessoas com quem se convive, se pode afastar a ilusão de que a serenidade não é um sentimento de bem estar, uma agradável tranquilidade num ambiente sossegado. A paz do coração é um estado interior. É claro que quando é possível se entrar num aposento, fechar a porta, desligar o telefone celular e avisar para não chamar em naquele momento de união com Deus tudo fica fácil, mas, nem sempre isto é possível e é então, ao se envolver na paciência, que o cristão percebe que conquistou a paz de Deus. As amolações de cada hora acabam por conduzir a este porto de silêncio habitado somente por Deus. Tira-se aquele espinho causado pelo próximo e ele é colocado dentro do Coração de Jesus e toda e qualquer impaciência se dissolve num ato de amor a quem ensinou a mais total humildade e tolerância. Há uma passagem do Evangelho que nem sempre é lembrada. Jesus afirmou: “Os inimigos do homem serão os de sua casa” (Mt 10,36). Não é facil conviver com as pessoas e conservar a serenidade do Reino de Deus. Quando a impertinência alheia não amofina mais é sinal de que se conquistou a paz de espírito. Ter calma no meio da tempestade é indício de autocontrole. Este brinda a pessoa contra todas as invectivas exteriores venham de onde vierem. Ancorada em Deus, nada pode lhe tirar a imperturbabilidade. Uma energia vital, fruto da correspondência às inspirações celestes, torna o Batizado imbatível! O combate para se obter o autocontrole é longo e até os maiores santos tiveram que lutar anos e anos para o obter. Muitas vezes são os problemas mal dimensionados que roubam a beatitude interna. Apenas aquele que tem coragem, determinação de contemplar no silêncio sua alma e se sentir sob o olhar de Deus alcança a plenitude da serenidade. Cumpre a cada um ser guarda de seu coração vigiando os pensamentos para os filtrar de tal modo que eles não sejam causa de perturbação. Se é idéia perniciosa, inimiga, logo deve ser afastada. Na casa do espírito não podem penetrar senão pensamentos que agradem a Deus e não prejudiquem o progresso espiritual do cristão. A mansão interior de cada um só deve estar inteiramente aberta para o Espírito Santo. Toda atenção, toda vigilância é pouca nesta caminhada e isto impede qualquer destabilização e leva à libertação de toda inquietude. Deste modo, o Batizado, ao tomar conhecimento da existência nele de qualqeur coisa que ultrapassa a união com o Criador, pode mesmo no cerne da agitação conservar a calma. A serenidade não é um fim em si, mas permite ao cristão rezar sempre e por toda parte, de estar completamente orientado para o seu Senhor e de nada fazer sem Ele. Eis aí o mais belo presente divino. Uma prece ssem distração se torna desta maneira a mais alta intelecção da inteligência. Segundo São Bento é estar na montanha de Deus, possível àquele que vive de acordo com os preceitos divinos. Não se trata de autosuficiência porque tal cristão vive a repetir:”Senhor, vossa graça me basta e é ela que eu vos imploro! Deste modo o Batizado já degusta na terra um pouco das delícias do céu. Uma feliz antecipação do gozo perene na Casa do Pai. Respira a paz e não se envolve jamais na agitação. Aquele que é agitado perdeu o centro vita de sua vida espiritual, pois é joguete do que lhe vem do exterior.
Por Côn José Geraldo Vidigal de Carvalho
* Professor no Seminário de Mariana durante 40 anos.
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